No Brasil,
"15 de maio" é lembrado como o Dia Nacional do Controle
de Infecção Hospitalar. A partir desta semana, por ocasião
da data, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) inicia uma mobilização que tem como eixo central
uma idéia simples, mas que pode produzir resultados valiosos:
a correta higienização das mãos pelos profissionais
de saúde. Essa rotina pode se tornar uma poderosa ferramenta
de prevenção à infecção hospitalar.
Manifestada
durante a internação do paciente ou após a alta,
a infecção hospitalar decorre do contato com o ambiente
hospitalar ou em virtude de procedimentos invasivos, como cirurgias
e perfurações por agulhas de soros e cateteres. Trata-se
de um problema registrado em todo o mundo. Estudos realizados pelo Centro
para Controle de Doenças de Atlanta (EUA) mostram que a infecção
hospitalar prolonga a permanência de um paciente no hospital por,
pelo menos quatro dias, ao custo adicional de 1.800 dólares,
o que equivale a R$ 3,6 mil.
A estudante universitária Débora Rejane Gomes vivenciou,
de perto, as conseqüências de uma infecção
hospitalar. Há alguns anos, seu avô, de 67 anos, deu entrada
em um hospital devido a uma fratura no braço. Após ter
passado por uma cirurgia e ter recebido alta médica, ele começou
a apresentar outros sintomas. ¿Primeiro, foi uma hemorragia no
local da fratura, que o obrigou a voltar para o hospital. Depois, veio
o coma, a confirmação da infecção hospitalar
pelos médicos e o óbito¿, lembra a estudante.
O
episódio deixou a família abalada e serviu de alerta.
¿Hoje, quando vamos ao hospital, sempre nos preocupamos em observar
se o profissional usa luvas, se lava as mãos antes de nos tocar.
Além disso, procuramos nos informar, também, sobre o medicamento
que nos foi indicado¿, conta Débora.
Medidas
simples de prevenção, como a higienização
das mãos dos profissionais que lidam diretamente com o paciente
(médicos e profissionais de enfermagem, principalmente) e a boa
conservação do ambiente, diminuem sensivelmente a incidência
e a gravidade das infecções hospitalares. ¿Reconhecida
há muitos anos, a higienização das mãos
é a medida preventiva mais importante e a de menor custo no controle
das infecções¿, defende o diretor da Anvisa, Cláudio
Maierovitch. Para o diretor, a adesão à prática
ainda é baixa. ¿Por isso, os profissionais devem ser estimulados
a praticá-la constantemente¿, completa Maierovitch.
A
Organização Mundial de Saúde (OMS), por meio do
programa Aliança Mundial Para a Segurança do Paciente,
estabelece diretrizes e estratégias para incentivar, em diferentes
países, a prática de lavagem correta das mãos.
Em consonância com as orientações da OMS, a Anvisa
elaborou a cartilha ¿Higienização das Mãos
em Serviços de Saúde¿, que visa esclarecer e sensibilizar
os profissionais de saúde para a importância desta prática.
O
lançamento da publicação acontece nesta segunda-feira
(14) durante a Oficina Nacional de Controle de Infecção
em Serviços de Saúde. O encontro, que vai até a
próxima quarta-feira (16), reúne, no Hotel Saint Paul,
em Brasília, coordenadores das Comissões de Controle de
Infecção Hospitalar (CCIHs) das secretarias estaduais
de Saúde. Durante três dias, eles vão discutir e
definir ações voltadas à prevenção
e ao controle da infecção hospitalar. Exemplares da cartilha
serão enviados, por solicitação, aos serviços
de saúde de todo o país.
Para o membro do Comitê de Antimicrobianos da Sociedade Brasileira
de Infectologia e Coordenador da CCIH do Hospital do Servidor Público
do Estado de São Paulo, Renato Grinbaum, a baixa adoção
da prática de higienização das mãos se deve
muito mais à inadequação das estruturas hospitalares
do que à falta de disposição dos profissionais.
¿Muitas vezes, a sobrecarga de trabalho ou a quantidade insuficiente
de pias e insumos (sabão, água e álcool) dificulta
o hábito¿, avalia Grinbaum. Na avaliação
do infectologista, outra dificuldade é o uso de insumos de baixa
qualidade. ¿Produtos que causam irritação ou processos
alérgicos acabam fazendo com que o profissional crie uma barreira
àquela prática, lavando a mão menos vezes do que
deveria¿, completa Renato Grinbaum.
Ações ¿ Outra medida a ser implementada pela Anvisa
é a capacitação de profissionais de saúde
e a divulgação, inclusive por meio da internet, de experiências
bem sucedidas que sirvam de modelo e possam ampliar o acesso a informações
para os profissionais envolvidos com o tema. ¿Pretendemos estimular
a discussão destas questões incluindo o tema nas grades
curriculares dos cursos de formação dos profissionais
de saúde¿, sinaliza o diretor da Anvisa, Cláudio
Maierovitch. Segundo ele, é possível tratar da prevenção
e do controle da infecção hospitalar até mesmo
com alunos da educação infantil.
A Agência, em parceria com a Organização Pan-Americana
de Saúde (Opas) e a Coordenação Geral de Laboratórios
de Saúde Pública do Ministério da Saúde
(CGLAB/MS), também desenvolve um programa que está mapeando
o perfil de sensibilidade dos microrganismos causadores de infecção
em pacientes internados. Um dos motivos do agravamento das infecções
é o aumento da resistência das bactérias aos medicamentos
antimicrobianos (antibióticos) que, usados em excesso e indiscriminadamente,
promovem a proliferação de bactérias mais resistentes.
Um dia de reflexões
O ato de lavar as mãos é, historicamente, uma preocupação
na área da saúde. Foi o médico húngaro Ignaz
Philliph Semmelweis quem demonstrou a realidade e prevalência
da transmissão das infecções hospitalares por meio
das mãos. No dia 15 de maio de 1847, ele instituiu o uso de uma
solução clorada para a lavagem das mãos como procedimento
obrigatório (para todos) na entrada da sala de parto do hospital
em que trabalhava, em Viena, capital da Áustria.
Após a introdução do procedimento de higienização
das mãos, observou-se a redução no número
de mortes maternas por infecção puerperal (pós-parto).
A prática, sugerida por Semmelweis, tem sido recomendada como
medida primária no controle da disseminação de
agentes infecciosos. No Brasil, a data (15 de maio) consagrou-se, desde
1999, como o Dia Nacional do Controle de Infecção Hospitalar.
O quadro do controle de infecção hospitalar no Brasil
- No Brasil, o controle de infecções hospitalares começou
a ser aprimorado por meio da Portaria 196/83 do Ministério da
Saúde.
-
Em 1997, o Programa Nacional de Controle de Infecção Hospitalar
é delineado pela Lei 9.431, que obriga os hospitais a criarem
uma comissão permanente de controle das infecções
hospitalares, e pela Portaria 2616/98 do Ministério da Saúde.
Pela lei, as comissões permanentes devem ser compostas por representantes
dos médicos, enfermeiros e da administração hospitalar.
Nos hospitais de maior porte, também devem ser incluídos
os representantes dos laboratórios de microbiologia e das farmácias
hospitalares.
- Em 2000, um ano após a criação da Anvisa, apenas
12 estados brasileiros possuíam comissões estaduais de
controle de infecção. No fim de 2002, os 26 estados e
o Distrito federal já haviam reorganizado suas comissões.
- Pesquisa da Anvisa realizada em parceria com a Faculdade de Saúde
Pública da USP e divulgada em 2006 analisou a realidade funcional
de 4.148 hospitais do país e revelou que 76% deles (3152) possuem
comissões de controle de infecção hospitalar. A
vigilância das infecções hospitalares é realizada
em 77% das instituições (3194) e 49% dos hospitais (2012)
desenvolvem programas permanentes de controle. Porém, apenas
33% deles (1356) adotam medidas de contenção de surtos.
- Estudos internacionais revelam que a existência de um programa
de controle de infecção hospitalar dentro dos serviços
de saúde reduz em 30% a incidência desses agravos.
- Segundo a Pesquisa da Assistência Médico-Sanitária
divulgada pelo IBGE em 2006, no Brasil 4.578 estabelecimentos de saúde,
com serviço de internação, possuem Comissão
de Controle de Infecção Hospitalar, sendo 1.427 públicos
e 3.151 privados.
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